Por ocasião do lançamento da Campanha mundial contra a fome, a pobreza e as desigualdades,
Flávio Giovenale, bispo de Santarém e presidente da Cáritas Brasileira, publicou um artigo no jornal
Correio Brazilense, 10-12-2013.
Eis o artigo.
Hoje, 10 de dezembro,
Dia Internacional dos Direitos Humanos, a
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a
Cáritas Brasileira lançam a campanha mundial contra a fome, a pobreza e as desigualdades. Com o tema "
Uma família humana, pão e justiça para todas as pessoas",
queremos sensibilizar e mobilizar a sociedade sobre essas realidades
responsáveis por grandes mazelas no mundo e no Brasil. A campanha faz
parte de uma mobilização mundial da
Caritas Internationalis,
que articulou as 164 organizações membro para esse grande movimento em
favor da vida, dos direitos humanos e da justiça social.
O papa Francisco,
em sua primeira exortação apostólica, chamou a atenção ao dizer que
"não se pode tolerar mais o fato de se lançar comida no lixo, quando há
pessoas que passam fome. Isso é desigualdade social. Assim como o
mandamento "não matar" põe um limite claro para assegurar o valor da
vida humana, também hoje devemos dizer "não a uma economia da exclusão e
da desigualdade social". Esta economia mata. Dessa forma, o Santo Padre
reafirma a opção da Igreja pelos empobrecidos e a urgente necessidade
de pararmos e prestarmos atenção à realidade que está em nossa volta.
A
Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO)
diz que, hoje, 842 milhões de pessoas sofrem com a fome no mundo, ou
seja, um em cada oito seres humanos não tem acesso a uma alimentação
adequada e de qualidade. O
Relatório da Riqueza Global, lançado este ano pelo banco suíço
Credit Suisse,
afirma que, se a riqueza produzida no mundo em 2013, que foi de US$ 241
trilhões, fosse distribuída em partes iguais entre as pessoas adultas
do planeta, cada um iria receber US$ 56.600. Não podemos mais admitir
esses dados: os 10% mais ricos controlam 86% da riqueza global, enquanto
apenas 32 milhões de adultos, em um mundo com 7 bilhões de habitantes,
possuem 41% da riqueza mundial. Além disso, dois terços dos adultos da
humanidade — 3,2 bilhões — só conseguem dividir 3% da riqueza mundial.
O Brasil, como muito se tem divulgado, é a sexta economia mais rica do mundo, segundo o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
mas 57 milhões de pessoas vivem em estado de pobreza, ou seja,
sobrevivem com meio salário mínimo. Mesmo com programas de distribuição
de renda promovidos pelo governo federal, como o
Bolsa Família,
20% dos mais ricos ainda detém 63,8% da renda nacional, enquanto os 20%
mais pobres acessam apenas 2,5% de toda a riqueza que é produzida pelo
país. O
Atlas de Exclusão Social: os ricos no Brasil mostra que o país tem mais de 51 milhões de famílias, mas somente 5 mil apropriam-se de 45% de toda a riqueza e renda nacional.
É
fato que o Brasil tirou milhões de brasileiros da extrema pobreza, mas
em que condições? É aceitável definir a pobreza a partir de uma
quantidade de dólares ou reais por dia? Trata-se da superação efetiva
das necessidades básicas ou apenas evitar a morte pela fome? A produção
agropecuária pode garantir alimentação para 12 bilhões de seres humanos.
Como somos pouco mais de 7 bilhões, há evidente desperdício e
impedimento de que muitos tenham acesso aos alimentos. Vivemos em um
país que teima em fazer reforma agrária ao inverso: aumenta a quantidade
de terra sob controle de uma minoria e diminui a destinada aos pequenos
proprietários, que são produtores de mais de 70% dos alimentos da nossa
população.
A
campanha mundial contra a fome e a pobreza,
no Brasil, vai promover processo de escuta e diálogo com os grupos,
comunidades e paróquias, com o intuito de identificar como os próprios
empobrecidos enxergam a questão da pobreza e da miséria no país. Não
vamos retratar a fome, a pobreza e a miséria apenas como números que
colocam o ser humano em uma condição de estatística. Vamos retratar a
verdadeira face dessa realidade e quem nos contará essa história serão
os próprios rostos da pobreza, da fome e da miséria no Brasil. A
expectativa é que, em setembro de 2014, um documento sistematizado com o
resultado de todos esses diálogos seja lançado para a sociedade
brasileira.
Alimentados e animados pela frase do nosso grande mestre fundador,
dom Helder Câmara,
que nos ilumina dizendo que "o verdadeiro cristianismo rejeita a ideia
de que uns nascem pobres e outros ricos", vamos alicerçados na esperança
e na confiança do Santo Padre, o
papa Francisco, seguindo a nossa missão.
Nota da IHU On-Line: Veja o vídeo do
Papa Francisco lançando a Campanha Mundial contra a Fome clicando
aqui.
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