Publicado em 04/10/2012
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Atualizado em 04/10/2012
Quando decidiu pesquisar a fundo a questão dos agrotóxicos, a bióloga marinha
Rachel Carson já era uma escritora conhecida nos Estados Unidos, graças ao sucesso de seus três livros sobre os oceanos:
Sob o mar-vento (1941),
O mar que nos cerca (1951) e
Beira-mar
(1955). A trilogia permitiu que ela deixasse um emprego público na
Secretaria de Pesca Federal para se dedicar totalmente à escrita, sua
grande paixão.
Mas
Carson já se
interessava pelo tema dos pesticidas desde 1945, quando biólogos
norte-americanos começaram a estudar os efeitos do
dicloro-difenil-tricloroetano (o inseticida DDT) no ambiente.
Após a Segunda Guerra Mundial, o DDT começou a ser usado no combate aos insetos que atacavam as culturas agrícolas
O DDT foi sintetizado em 1874, na Alemanha, mas suas propriedades
inseticidas só foram descobertas em 1939 pelo químico suíço Paul Hermann
Müller (1899-1965). Como o composto foi empregado inicialmente, com
sucesso, no combate a insetos (piolhos, mosquitos e outros)
transmissores de doenças (tifo, malária, febre amarela e outras), a
descoberta foi apontada como um feito revolucionário e deu a Müller, em
1948, o prêmio Nobel de Medicina.
Após a Segunda Guerra Mundial, o DDT começou a ser usado no combate
aos insetos que atacavam as culturas agrícolas, mas em pouco mais de uma
década começaram a ser noticiados episódios de contaminação da água e
do solo e de morte de animais.
Quatro anos de estudo
Em 1958,
Carson recebeu
carta de uma amiga, a jornalista Olga Huckins (1900-1968), contando
sobre pássaros mortos em seu quintal, devido a pulverizações aéreas de
DDT. Essa foi a ‘gota d’água’ para a decisão de escrever
Primavera silenciosa (leia
resenha do livro publicada na CH 275). À medida que investigava e obtinha informações sobre os pesticidas,
Carson percebia a gravidade do problema e, ao mesmo tempo, a urgência de denunciá-lo ao mundo.
Ela sabia que o tema era polêmico e poderia provocar reação negativa
dos fabricantes de pesticidas. Para precaver-se das acusações, pesquisou
muito. Entrou em contato com cientistas de diferentes países, formando
uma rede de colaboradores.
- Para escrever ‘Primavera silenciosa’, Rachel Carson
(na foto) pesquisou o tema durante quatro anos e contou com a
colaboração de cientistas de vários países. (foto: EUA Fish and Wildlife
Service)
O estudo sobre os pesticidas consumiu muita energia e, em meio à sua
elaboração, a escritora descobriu que estava com câncer. O trabalho no
livro chegou a ser suspenso durante o tratamento com radioterapia, mas
depois de quatro anos de muita dedicação, a primeira versão de
Primavera silenciosa foi publicada, em fascículos, em junho de 1962, na revista
New Yorker. Em setembro do mesmo ano, foi lançado o livro.
Em suas páginas,
Carson
denunciou vários efeitos negativos do uso do DDT em plantações e em
campanhas de prevenção de doenças. As aplicações não matavam apenas as
pragas (insetos, ervas daninhas, fungos etc.) às quais se dirigia, mas
também muitas outras espécies, inclusive predadores naturais dessas
pragas. Esse pesticida, mostrou ela, atinge todo o ecossistema – solo,
águas, fauna e flora – e entra na cadeia alimentar, chegando aos
humanos.
Segundo
Carson, a
“ecologia do solo” é gravemente afetada, pois o DDT mata organismos
responsáveis pela drenagem do solo – como as minhocas, que melhoram a
penetração da água – e pela fixação de nitrogênio.
Essa era a ‘primavera silenciosa’ que ela queria evitar: uma estação sem pássaros
A autora alertou também para a contaminação das águas de superfície
(córregos, rios e lagoas) e subterrâneas (aquíferos), e ainda da água
dos mares. Ela fala de “rios de morte”, em que, após pulverizações de
pesticidas, toda a vida era eliminada. Quando os peixes não morriam,
ficavam cegos ou contaminados, podendo até causar câncer em quem os
ingerisse.
Além dos animais aquáticos,
Carson
constatou que os pesticidas ameaçavam ‘aguietas’ (filhotes de águia),
papos-roxos, andorinhas, melros e outros pássaros de duas formas: as
aplicações de pesticidas causavam sua morte ou prejudicavam sua
reprodução, já que o veneno agia nas células reprodutoras dessas
espécies. Essa era a ‘primavera silenciosa’ que ela queria evitar: uma
estação sem pássaros.
Questão ainda atual
Usando uma linguagem que mesclava pesquisa rigorosa com habilidade
literária, para aproximar o conhecimento científico do público leigo,
Primavera silenciosa teve impacto instantâneo, ficou mais de dois anos nas listas dos livros mais vendidos e logo repercutiu mundialmente.
Enquanto a população enviava inúmeras cartas de apoio a
Carson,
os fabricantes de pesticidas se uniram para desacreditar a autora e
seus colaboradores. Cientistas comprometidos com a produção de
agrotóxicos publicaram artigos questionando a legitimidade do livro
porque a autora não tinha doutorado (era mestre em zoobotânica), e
outros a atacaram com argumentos preconceituosos, chamando-a de “freira
da natureza”, “solteirona”, “feiticeira”, insinuando que deveria se
calar apenas pelo fato de ser uma mulher.
Apesar desse fogo cruzado – as difamações e o avanço do câncer –,
Rachel Carson
depôs no Senado dos Estados Unidos e participou de debates e de
programas na televisão, divulgando os perigos dos agrotóxicos para a
saúde humana e para o ambiente. Infelizmente, a doença venceu e a
bióloga morreu em 1964, sem ver os resultados de suas palavras ao longo
das décadas seguintes.
O DDT foi banido de vários países, a começar por Hungria (1968),
Noruega e Suécia (1970) e Alemanha e Estados Unidos (1972). Hoje, a
Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes, assinada
por cerca de 180 países, restringe o uso do composto a casos especiais
de controle de vetores de doenças. No Brasil, a fabricação, importação,
exportação, manutenção em estoque, comercialização e uso do DDT só foram
proibidos em 2009.
- O DDT foi inicialmente
empregado, com sucesso, no combate a insetos transmissores de doenças. O
composto começou a ser banido de vários países no final da década de
1960. (foto: Otis Historical Archives/ National Museum of Health and
Medicine – CC BY 2.0)
Já havia pessoas preocupadas com a devastação da natureza bem antes de
Primavera silenciosa,
mas o movimento ecologista de caráter político certamente foi
impulsionado pela publicação do livro. Ao criticar o uso dos
agrotóxicos,
Carson tratava
um tema fundamental, a relação do homem com a natureza. Em um trecho do
livro, ela pergunta: “O valor supremo é um mundo sem insetos, mesmo que
seja um mundo estéril?”
Para
Carson, a humanidade
estava em guerra com a natureza. Trilhando um caminho equivocado,
começava a sofrer um tipo de risco introduzido pelo próprio ser humano.
Em nome do progresso científico, os agrotóxicos eram anunciados como a
maneira mais moderna de se erradicar pragas na agricultura e, com isso,
resolver o problema da fome no mundo. Essa ‘promessa’, no entanto, não
foi cumprida: os insetos se tornaram resistentes aos venenos e ainda há
muita gente passando fome.
Mesmo passados 50 anos, o livro de
Rachel Carson
permanece extremamente relevante. No contexto recente, em que o Brasil
carrega o assustador título de maior consumidor de agrotóxicos do mundo,
Primavera silenciosa é atual e necessário. As palavras dessa
pesquisadora e escritora podem nos ajudar a repensar nossos valores.
Afinal, vale muito mais a pena ter primaveras bem barulhentas, nas quais
possam ser ouvidos tanto os sons das pessoas quanto os sons da
natureza.
Elenita Malta Pereira
Programa de Pós-graduação em História
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Texto originalmente publicado na CH 296 (setembro de 2012).