Fonte Jornal O São Paulo
Fotos: Planta Feliz
Em 2009, quando a compostagem ainda era um tema pouco difundido no
Brasil, a hoteleira Marina Sierra decidiu deixar de enviar seus resíduos
orgânicos para o sistema de coleta de lixo. Mesmo com o acesso limitado a
informações sobre o assunto na época, ela já compreendia que a destinação
inadequada desses materiais contribui diretamente para as mudanças climáticas,
responsáveis por eventos extremos cada vez mais frequentes.
“Comecei com a compostagem doméstica, utilizando minhocas, mas percebi
que aquele modelo resolvia apenas parte do problema, pois apresentava algumas
restrições em relação aos alimentos que podiam ser compostados”, relembra
Marina.
Naquele período, ela conheceu o marido, Adriano Sgarbi. Ao compartilhar
com ele o desejo de encontrar uma solução mais ampla para os resíduos
orgânicos, recebeu a proposta de mudar-se para um sítio e ampliar o projeto. No
novo endereço, Adriano passou a estudar métodos de compostagem capazes de
receber todos os tipos de resíduos orgânicos, inclusive os de origem animal.
Foi assim que o casal chegou à compostagem termofílica, tecnologia que permite
processar resíduos vegetais e animais de forma segura e eficiente.
A chegada da filha do casal, Valentina, em 2017, fortaleceu ainda mais
esse propósito. Foi naquele momento que Marina e Adriano sentiram que era hora
de transformar o sonho em algo concreto. Nascia, então, a Planta Feliz,
iniciativa criada para deixar um legado capaz de contribuir para um mundo
melhor às futuras gerações.
DE 42
MIL METROS QUADRADOS PARA A CIDADE INTEIRA
Localizada no bairro Jardim Casa Grande, na zona Sul da capital
paulista, a Planta Feliz ocupa uma área de 42 mil metros quadrados e é o
primeiro pátio privado de compostagem da cidade a possuir a Licença de Operação
(LO) da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), autorização
ambiental que permite a uma empresa, indústria, comércio ou empreendimento
iniciar e manter suas atividades em funcionamento.
Atualmente, a Planta Feliz mantém parceria com a Prefeitura,
desenvolvida principalmente por intermédio do Polo de Ecoturismo de São Paulo,
território que abrange Parelheiros, Marsilac e a Ilha do Bororé, áreas de
grande relevância ambiental para a capital.
Por meio dessa colaboração, a Planta Feliz tem fortalecido o turismo
rural, o turismo de base comunitária e as vivências pedagógicas promovidas na
propriedade, aproximando a população da compostagem, da agroecologia e da
preservação ambiental.
“Além da destinação correta dos resíduos orgânicos, conseguimos promover
experiências práticas de educação ambiental para escolas, turistas, empresas e
grupos interessados em conhecer soluções sustentáveis aplicadas no território”,
explica Marina.
A Prefeitura também apoia a realização da Semana da Compostagem Planta
Feliz, evento anual com atividades educativas, debates, oficinas e vivências
sobre compostagem, mudanças climáticas, sustentabilidade e regeneração. Neste
ano, a programação aconteceu em maio.
QUANDO
O LIXO VOLTA A SER RECURSO
Com o projeto consolidado, a Planta Feliz oferece um serviço
especializado de coleta e compostagem para garantir a destinação ambientalmente
adequada de resíduos orgânicos gerados por escritórios, empresas, comércios,
restaurantes, escolas, clubes e eventos.
Para que o serviço seja realizado, no entanto, todo o material recebido
precisa estar corretamente segregado na origem. Isso significa que os
estabelecimentos devem manter, no mínimo, três categorias de descarte:
recicláveis secos, rejeitos destinados aos aterros sanitários e resíduos
compostáveis. Além disso, é necessário estar regularizado no Sistema Estadual
de Gerenciamento On-line de Resíduos Sólidos (Sigor), para garantir a
rastreabilidade por meio da documentação ambiental emitida pela Planta Feliz.
“Mesmo para os geradores que não possuem obrigatoriedade de
rastreabilidade, emitimos relatórios com indicadores ambientais, informando
quanto de resíduos deixou de ser enviado aos aterros sanitários, quanto deixou
de emitir gases de efeito estufa e quanto de composto orgânico foi gerado a
partir desse material”, destaca Marina.
Os resíduos passam pelo processo de compostagem termofílica e são
misturados à poda triturada. Durante o tratamento, as leiras atingem
temperaturas controladas que aceleram a decomposição da matéria orgânica,
eliminam patógenos e inviabilizam sementes. Ao final do ciclo, o que antes era
considerado lixo retorna à natureza na forma de composto orgânico. Parte desse
adubo é doada mensalmente para hortas que ajudam a abastecer a população,
fortalecendo a economia circular e a regeneração do solo.
Segundo Marina, o composto também é comercializado para todo o Brasil
por meio do Mercado Livre e em pontos parceiros em São Paulo que apoiam a
agricultura familiar, como o Instituto Chão e o Instituto Baru.
MUDANÇA
DE HÁBITOS
Outro eixo importante da iniciativa é a formação. Para Marina, mais do
que oficinas, as vivências pedagógicas realizadas com escolas, turistas,
empresas e grupos interessados em conhecer o funcionamento de um pátio de
compostagem dentro do Polo de Ecoturismo de São Paulo têm potencial para
transformar a forma como as pessoas enxergam os resíduos.
“Muitas chegam acreditando que lixo orgânico é apenas lixo e saem
entendendo que aquilo é, na verdade, um recurso capaz de regenerar o solo,
produzir alimento e reduzir impactos ambientais.”, destaca Marina.
O trabalho tem atraído visitantes de diferentes regiões do Brasil e de
outros países interessados em implantar iniciativas semelhantes. No ano
passado, por exemplo, o projeto recebeu comitivas das Filipinas e da Tanzânia
durante as agendas relacionadas à COP30.
Para os próximos anos, a meta é ampliar o acesso da população à
compostagem e fortalecer a conexão entre resíduos, regeneração do solo e
mudanças climáticas.
A iniciativa também deseja inspirar as empresas a incorporar a agenda
ESG – conjunto de critérios e práticas corporativas que aliam os aspectos
ambiental, social e de governança (Environmental,
Social, Governance). Para Marina, a destinação correta dos resíduos orgânicos precisa
fazer parte desse compromisso. Ela destaca, ainda, que a com-postagem é uma
urgência para tornar os centros urbanos mais sustentáveis e resilientes diante
dos desafios climáticos.

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