Fonte: GLOSSÁRIO DE VERBETES EM AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE
VOLUME 3 - CRISE CLIMÁTICA, RISCOS E ADAPTAÇÃO
Adriano André Lange Dalci
Daniela Mueller de Lara
Suzana Frighetto Ferrarini
Conforme o Relatório de Eventos Climáticos, Eventos extremos de maio de 2024 no Brasil, do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a cidade de Caxias do Sul registrou, em maio de 2024, 845,3 mm de precipitação – aproximadamente 713 mm a mais que a média usual de 131,4 mm, o que representa mais de seis vezes o valor climatológico. Segundo Collischonn et al. (2024), entre 1º de abril e 5 de maio, a precipitação na bacia hidrográfica do Guaíba atingiu cerca de 900 mm, mais de dez vezes a média esperada para a região. Esses eventos extremos resultam em sérias consequências para a população, a economia e o meio ambiente, causando a destruição da flora e da fauna em várias regiões do Rio Grande do Sul. Segundo a Defesa Civil do Rio Grande do Sul, 473 dos 497 municípios do estado (ou 95%) foram afetados, o que resultou em mortes e destruição de estradas, construções, casas, plantações e criações de animais. Esses eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos. Dados globais indicam que a atividade humana a partir da Revolução Industrial, é um dos principais fatores responsáveis (Monteiro et al., 2021).
Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que, desde 1970, a temperatura da superfície global aumentou mais rapidamente do que em qualquer outro período de 50 anos nos últimos 2.000 anos, alcançando 1,51 ºC acima dos níveis pré-industriais (1850-1900) em 2023. Segundo Scabin (2023), o aumento da temperatura global pode causar longos períodos de seca, escassez de água, desertificação de algumas áreas, perda de recursos naturais e graves problemas socioambientais. A ONU também aponta que a concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera aumentou de 280 ppm em 1850 para 421 ppm em 2023, com crescimento exponencial após 1950, quando esse nível era de 321 ppm. A crescente concentração de gases de efeito estufa na atmosfera – principalmente o CO₂, gerado pela queima de combustíveis fósseis – impede a dissipação de radiação, elevando a temperatura do planeta. Esse aquecimento global causa alterações nos ciclos hidrológicos e interfere em processos físicos, químicos e biológicos em todo o ecossistema. A ONU indica que o nível dos mares – que reflete a perda de massa das geleiras, mudanças nos recursos hídricos e expansão térmica dos oceanos – aumentou 4,4 mm por ano entre 2013 e 2021, somando cerca de 280 mm desde 1880. Esses indicadores estão interligados: a maior concentração de CO₂ intensifica o efeito estufa, o que eleva a temperatura e, consequentemente, o nível dos oceanos, aumentando a quantidade de vapor d'água na atmosfera.
De acordo com Gotardo et al. (2019), a substituição da cobertura vegetal natural, para outros usos influencia diretamente os mecanismos de retroalimentação entre a interface solo-atmosfera, resultando em impactos nas variáveis do ciclo hidrológico. No experimento realizado, na área interna de uma floresta do bioma Mata Atlântica do Sul do Brasil, comparado com área de pastagem, constatou-se uma precipitação 70% maior, umidade relativa do ar 7,1% menor, radiação global 7,35 vezes maior, temperatura do ar 10,71 % maior, velocidade do vento quase sete vezes maior, evapotranspiração oito vezes maior, e temperatura do solo 15% maior nas áreas de pastagens, com base nos valores das áreas florestadas. A precipitação interna menor da floresta se deve à interceptação da água no dossel da mesma. No entanto, quanto ao balanço hídrico, em números absolutos, internamente na floresta houve uma precipitação de 1343 mm e uma evapotranspiração de 192 mm, resultando numa retenção de 1151 mm. Na área de pastagem houve uma precipitação de 2284 mm e evapotranspiração de 1764 mm resultando numa retenção de 520 mm. Segundo o autor, os remanescentes florestais do bioma mata atlântica têm grande importância na atenuação das variáveis meteorológicas locais, sendo os serviços ecossistêmicos de regulação da floresta, através do microclima específico de seu interior, essencial para a biodiversidade local.
Especificamente sobre as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, segundo Clarke et al. (2024), a amplificação do centro de alta pressão sobre o centro do Brasil, ocasionado pelo El Niño, formou um sistema de bloqueio que, somado a alta anormal da temperatura do Atlântico, intensificou a corrente de umidade denominada Jato de baixo nível Sul Americano (SALLJ) e o fluxo de umidade da Amazônia, contribuindo para as fortes chuvas. Esse panorama permite uma compreensão mais clara dos profundos impactos das mudanças climáticas globais e das causas ligadas às atividades humanas. Ele reforça a urgência de ações efetivas para mitigar esses efeitos e limitar o avanço das mudanças climáticas.
REFERÊNCIAS
CLARKE, R. T. et al. Climate change, El Niño and infrastructure failures behind massive floods in southern Brazil. 2024. Disponível em: http://hdl.handle.net/10044/1/111882. Acesso em: 5 nov. 2024.
COLLISCHONN, W.; RUHOFF, A.; FILHO, R. C.; PAIVA, R.; FAN, F.; POSSA, T. Chuva da cheia de 2024 foi mais volumosa e intensa que a da cheia de 1941 na bacia hidrográfica do Guaíba. Nota Técnica IPH/UFRGS, 2024. Disponível em: https://www.ufrgs.br/iph/wp-content/uploads/2024/06/Comparacao-2024-e-1941-final.pdf. Acesso em: 3 nov. 2024.
DEFESA CIVIL. Defesa Civil atualiza balanço das enchentes no RS – 31/5, 9h. 2024. Disponível em: https://estado.rs.gov.br/defesa-civil-atualiza-balanco-das-enchentes-no-rs-31-5-9h. Acesso em: 4 nov. 2024.
GOTARDO, R.; PINHEIRO, A.; KAUFMANN, V.; PIAZZA, G. A.; TORRES, E. Comparação entre variáveis microclimáticas de local aberto e florestal em um bioma da Mata Atlântica, sul do Brasil. Ciência Florestal, v. 29, n. 3, p. 1415–1427, 2019.
INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA (INMET). Eventos extremos de maio de 2024 no Brasil. 2024. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br/uploads/notastecnicas/EventosExtremos-Brasil-Maio-2024.pdf. Acesso em: 3 nov. 2024.
MONTEIRO, A. F. M.; YAMAMOTO, A. L. C.; SILVA, P. N.; REBOITA, M. S. Conhecer a complexidade do sistema climático para entender as mudanças climáticas. Terrae Didatica, Campinas, v. 17, publ. contínua, p. 1–12, e021006, 2021.
SCABIN, D. Aquecimento global. 2023. Disponível em: https://semil.sp.gov.br/educacaoambiental/prateleira-ambiental/aquecimento-global/. Acesso em: 4 nov. 2024.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Atmospheric CO₂ concentration. Disponível em: https://wesr.unep.org/climate/essential-climate-variables-ecv/atmospheric-co2-concentration. Acesso em: 3 nov. 2024.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Global temperature change. Disponível em: https://wesr.unep.org/climate/essential-climate-variables-ecv/global-temperature-change. Acesso em: 3 nov. 2024.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Sea level rise. Disponível em: https://wesr.unep.org/climate/essential-climate-variables/sea-level-rise. Acesso em: 3 nov. 2024.

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