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quarta-feira, 10 de junho de 2026

2024 CHUVAS EXTREMAS NO SUL DO BRASIL



Fonte: GLOSSÁRIO DE VERBETES EM AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE

VOLUME 3 - CRISE CLIMÁTICA, RISCOS E ADAPTAÇÃO

Adriano André Lange Dalci

Daniela Mueller de Lara

Suzana Frighetto Ferrarini

Conforme o Relatório de Eventos Climáticos, Eventos extremos de maio de 2024 no Brasil, do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a cidade de Caxias do Sul registrou, em maio de 2024, 845,3 mm de precipitação – aproximadamente 713 mm a mais que a média usual de 131,4 mm, o que representa mais de seis vezes o valor climatológico. Segundo Collischonn et al. (2024), entre 1º de abril e 5 de maio, a precipitação na bacia hidrográfica do Guaíba atingiu cerca de 900 mm, mais de dez vezes a média esperada para a região. Esses eventos extremos resultam em sérias consequências para a população, a economia e o meio ambiente, causando a destruição da flora e da fauna em várias regiões do Rio Grande do Sul. Segundo a Defesa Civil do Rio Grande do Sul, 473 dos 497 municípios do estado (ou 95%) foram afetados, o que resultou em mortes e destruição de estradas, construções, casas, plantações e criações de animais. Esses eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos. Dados globais indicam que a atividade humana a partir da Revolução Industrial, é um dos principais fatores responsáveis (Monteiro et al., 2021).

Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que, desde 1970, a temperatura da superfície global aumentou mais rapidamente do que em qualquer outro período de 50 anos nos últimos 2.000 anos, alcançando 1,51 ºC acima dos níveis pré-industriais (1850-1900) em 2023. Segundo Scabin (2023), o aumento da temperatura global pode causar longos períodos de seca, escassez de água, desertificação de algumas áreas, perda de recursos naturais e graves problemas socioambientais. A ONU também aponta que a concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera aumentou de 280 ppm em 1850 para 421 ppm em 2023, com crescimento exponencial após 1950, quando esse nível era de 321 ppm. A crescente concentração de gases de efeito estufa na atmosfera – principalmente o CO₂, gerado pela queima de combustíveis fósseis – impede a dissipação de radiação, elevando a temperatura do planeta. Esse aquecimento global causa alterações nos ciclos hidrológicos e interfere em processos físicos, químicos e biológicos em todo o ecossistema. A ONU indica que o nível dos mares – que reflete a perda de massa das geleiras, mudanças nos recursos hídricos e expansão térmica dos oceanos – aumentou 4,4 mm por ano entre 2013 e 2021, somando cerca de 280 mm desde 1880. Esses indicadores estão interligados: a maior concentração de CO₂ intensifica o efeito estufa, o que eleva a temperatura e, consequentemente, o nível dos oceanos, aumentando a quantidade de vapor d'água na atmosfera.

De acordo com Gotardo et al. (2019), a substituição da cobertura vegetal natural, para outros usos influencia diretamente os mecanismos de retroalimentação entre a interface solo-atmosfera, resultando em impactos nas variáveis do ciclo hidrológico. No experimento realizado, na área interna de uma floresta do bioma Mata Atlântica do Sul do Brasil, comparado com área de pastagem, constatou-se uma precipitação 70% maior, umidade relativa do ar 7,1% menor, radiação global 7,35 vezes maior, temperatura do ar 10,71 % maior, velocidade do vento quase sete vezes maior, evapotranspiração oito vezes maior, e temperatura do solo 15% maior nas áreas de pastagens, com base nos valores das áreas florestadas. A precipitação interna menor da floresta se deve à interceptação da água no dossel da mesma. No entanto, quanto ao balanço hídrico, em números absolutos, internamente na floresta houve uma precipitação de 1343 mm e uma evapotranspiração de 192 mm, resultando numa retenção de 1151 mm. Na área de pastagem houve uma precipitação de 2284 mm e evapotranspiração de 1764 mm resultando numa retenção de 520 mm. Segundo o autor, os remanescentes florestais do bioma mata atlântica têm grande importância na atenuação das variáveis meteorológicas locais, sendo os serviços ecossistêmicos de regulação da floresta, através do microclima específico de seu interior, essencial para a biodiversidade local.

Especificamente sobre as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, segundo Clarke et al. (2024), a amplificação do centro de alta pressão sobre o centro do Brasil, ocasionado pelo El Niño, formou um sistema de bloqueio que, somado a alta anormal da temperatura do Atlântico, intensificou a corrente de umidade denominada Jato de baixo nível Sul Americano (SALLJ) e o fluxo de umidade da Amazônia, contribuindo para as fortes chuvas. Esse panorama permite uma compreensão mais clara dos profundos impactos das mudanças climáticas globais e das causas ligadas às atividades humanas. Ele reforça a urgência de ações efetivas para mitigar esses efeitos e limitar o avanço das mudanças climáticas.

REFERÊNCIAS

CLARKE, R. T. et al. Climate change, El Niño and infrastructure failures behind massive floods in southern Brazil. 2024. Disponível em: http://hdl.handle.net/10044/1/111882. Acesso em: 5 nov. 2024.

COLLISCHONN, W.; RUHOFF, A.; FILHO, R. C.; PAIVA, R.; FAN, F.; POSSA, T. Chuva da cheia de 2024 foi mais volumosa e intensa que a da cheia de 1941 na bacia hidrográfica do Guaíba. Nota Técnica IPH/UFRGS, 2024. Disponível em: https://www.ufrgs.br/iph/wp-content/uploads/2024/06/Comparacao-2024-e-1941-final.pdf. Acesso em: 3 nov. 2024.

DEFESA CIVIL. Defesa Civil atualiza balanço das enchentes no RS – 31/5, 9h. 2024. Disponível em: https://estado.rs.gov.br/defesa-civil-atualiza-balanco-das-enchentes-no-rs-31-5-9h. Acesso em: 4 nov. 2024.

GOTARDO, R.; PINHEIRO, A.; KAUFMANN, V.; PIAZZA, G. A.; TORRES, E. Comparação entre variáveis microclimáticas de local aberto e florestal em um bioma da Mata Atlântica, sul do Brasil. Ciência Florestal, v. 29, n. 3, p. 1415–1427, 2019.

INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA (INMET). Eventos extremos de maio de 2024 no Brasil. 2024. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br/uploads/notastecnicas/EventosExtremos-Brasil-Maio-2024.pdf. Acesso em: 3 nov. 2024.

MONTEIRO, A. F. M.; YAMAMOTO, A. L. C.; SILVA, P. N.; REBOITA, M. S. Conhecer a complexidade do sistema climático para entender as mudanças climáticas. Terrae Didatica, Campinas, v. 17, publ. contínua, p. 1–12, e021006, 2021.

SCABIN, D. Aquecimento global. 2023. Disponível em: https://semil.sp.gov.br/educacaoambiental/prateleira-ambiental/aquecimento-global/. Acesso em: 4 nov. 2024.

UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Atmospheric CO₂ concentration. Disponível em: https://wesr.unep.org/climate/essential-climate-variables-ecv/atmospheric-co2-concentration. Acesso em: 3 nov. 2024.

UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Global temperature change. Disponível em: https://wesr.unep.org/climate/essential-climate-variables-ecv/global-temperature-change. Acesso em: 3 nov. 2024.

UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Sea level rise. Disponível em: https://wesr.unep.org/climate/essential-climate-variables/sea-level-rise. Acesso em: 3 nov. 2024.


quinta-feira, 16 de maio de 2024

Centro de Porto Alegre inundado há duas semanas, dia é gelado e volta a ...

A troca de vegetação nativa por soja pode ter agravado as enchentes no Rio Grande do Sul?

 

fonte: BBC

Plantação de soja no Brasil

CRÉDITO,REUTERS

Legenda da foto,Plantações substituem vegetação nativa no Brasil inteiro
  • Author,Leandro Prazeres
  • Role,Da BBC News Brasil em Brasília

As inundações que atingiram o Rio Grande do Sul nas últimas semanas já levaram à morte de mais de uma centena de pessoas e deixaram outras milhares desalojadas.

A chuva não vem dando trégua, os boletins meteorológicos e hidrológicos apontam para um possível recrudescimento da situação na região nos próximos dias e as enchentes já são consideradas o pior evento climático da história do Rio Grande do Sul e um dos piores do Brasil.

A dimensão da tragédia, as perdas de vidas humanas e a destruição de comunidades inteiras têm despertado uma discussão sobre os fatores que levaram a essa catástrofe ou que poderiam ter ajudado a diminuir sua intensidade.

Um dos aspectos apontados por especialistas ouvidos pela BBC News Brasil é o possível impacto da redução da vegetação nativa no Estado.

Dados produzidos pela organização MapBiomas e obtidos pela BBC News Brasil mostram que, entre 1985 e 2022, o Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação nativa.

Isso é o equivalente a 22% de toda cobertura vegetal original presente no Estado em 1985 formada por florestas, campos, áreas pantanosas e outras formas de vegetação nativa.

Os dados mostram ainda que ao mesmo tempo em que isso acontecia, houve um aumento vertiginoso de lavouras de soja, silvicultura e da área urbanizada do Estado.

Cientistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que a perda de cobertura vegetal original pode ter contribuído para as dimensões das inundações que afetaram o Estado porque a vegetação nativa:

  • diminui a velocidade com a qual a enxurrada chega ao leito dos rios;
  • aumenta a quantidade de água infiltrada no solo, o que diminui a quantidade de água disponível para inundações;
  • protege o solo diminuindo a quantidade de sedimentos que assoreiam os rios da região.

A Secretaria do Meio Ambiente (Sema) do Rio Grande do Sul diz que tem "atuado em várias frentes no intuito de garantir a proteção e recomposição de áreas de vegetação nativa no Estado."

"Os reflorestamentos e a restauração de ambientes naturais são entendidos como essenciais e estão contidos nos projetos prioritários do Estado", diz a nota enviada pela pasta.

Gráfico explicando as três maneiras pelas quais a vegetação nativa protege contra enxurradas
Pessoa observa rua destruída e água de inundação abaixando

CRÉDITO,SEBASTIAO MOREIRA/EPA-EFE/REX/SHUTTERSTOCK

Legenda da foto,Nova onda de chuvas já voltou a fazer aumentar o nível do Lago Guaíba, em Porto Alegre

Cidades e florestas 'artificiais'

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A relação entre a perda de vegetação nativa e os impactos das inundações no Rio Grande do Sul começou a ser feita por pesquisadores que estudam a ocupação do solo no Estado gaúcho há décadas.

Um deles é o pesquisador do MapBiomas Eduardo Vélez, um dos responsáveis pelo levantamento feito pela organização.

O MapBiomas é uma iniciativa que reúne organizações não-governamentais e empresas de tecnologia, e que utiliza imagens de satélite para estudar a mudança nos padrões de uso do solo em todo o Brasil.

Vélez explica que o levantamento tomou como ponto de partida o ano de 1985 porque é o primeiro ano da série histórica do conjunto de satélites Landsat.

"Para estudar esse fenômeno, a gente precisa de dados comparáveis de longo prazo", explica Vélez.

O pesquisador explica que o levantamento comparou as coberturas vegetais de diferentes categorias ao longo dos anos para estimar a quantidade de vegetação nativa perdida e o que ocupou o seu lugar no Rio Grande do Sul.

Vélez diz que a perda de vegetação nativa no Rio Grande do Sul atingiu o Estado como um todo, mas quase um terço dela se deu na bacia hidrográfica do Guaíba, uma das mais afetadas.

Lá, a perda de vegetação nativa foi de 1,3 milhão de hectares.

"O Rio Grande do Sul tem um bioma diferente da Amazônia, por exemplo. Temos algumas florestas nativas, mas a maior perda não se deu pelo desmatamento de florestas. Essa perda se deu, na maior parte, nas formações campestres", diz Vélez.

As formações campestres do Rio Grande do Sul são um tipo de vegetação adaptada ao clima sub-tropical do Estado composta, em sua maioria, por gramíneas e arbustos de pequeno porte.

Em geral, ela vem sendo utilizada historicamente nas atividades de pecuária extensiva, preservando, segundo especialistas, suas características originais biológicas e suas funções ambientais em relação à chuva e ao solo.

De acordo com o MapBiomas, o Estado perdeu 3,3 milhões de hectares em formações campestres entre 1985 e 2022, quase a totalidade de tudo o que o Estado perdeu em vegetação nativa no período.

Trata-se de uma perda de 32% em relação ao que havia desse tipo de vegetação em 1985.

O MapBiomas também mostra qual o destino dado às áreas onde a vegetação nativa foi suprimida.

Os dados apontam que houve um crescimento de 366% no total da área destinada à lavoura de soja no período.

Em 1985, o Estado tinha uma área de 1,3 milhão de hectares ocupada pela soja. Em 2022, essa área saltou para 6,3 milhões. O crescimento foi de 4,99 milhões de hectares.

Essa área é maior do que o total da perda de vegetação nativa porque, segundo Vélez, além de crescer sobre as áreas naturais do Estado, a soja também avançou sobre outras atividades como pastagens.

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Rio Grande do Sul era, em junho de 2023, o terceiro maior produtor de soja do Brasil, atrás de Paraná e Mato Grosso.

Outra atividade cuja área cresceu mudando a configuração do solo do Rio Grande do Sul é a silvicultura.

A silvicultura consiste na plantação de florestas novas ou no manejo de florestas nativas para a sua exploração comercial.

No Rio Grande do Sul, a principal forma de silvicultura é a plantação de florestas novas de espécies como eucalipto, pinus e outras espécies que são usadas para a produção de madeira, lenha e celulose.

De acordo com o MapBiomas, a área destinada à silvicultura no Estado saltou de 79 mil hectares para 1,19 milhão de hectares, um crescimento de 1.399%.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Rio Grande do Sul é o quinto maior Estado do Brasil em silvicultura, atrás de Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais.

O levantamento também mostra que houve um crescimento de 145% nas áreas urbanizadas do Estado no período estudado.

Em 1985, as áreas urbanizadas saíram de 97 mil hectares para 238.607 em 2022.

De acordo com o IBGE, a população do Estado era de 8,4 milhões em 1985. Em 2022, a população estimada era de 10,8 milhões.

LEIA MAIS EM: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cjmkkxzv2k2o 

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