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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Mudança climática pode piorar a qualidade das pastagens!

FONTE: USP

Elevação da temperatura média pode fazer com que as forrageiras fiquem mais fibrosas e menos proteicas, quando o gado precisará de mais alimento e produzirá mais metano
Para manter o mesmo nível de produção, os pecuaristas precisarão complementar a alimentação do plantel e regar as pastagens, com impacto significativo nos custos de produção – Foto: Divulgação via Fapesp
O aumento das temperaturas médias esperado para as próximas décadas, de no mínimo 2º C, pode ter um impacto inesperado no bolso dos pecuaristas. Novos estudos sugerem que um dos efeitos da mudança no clima será a redução na qualidade da pastagem, que se tornará menos proteica, mais fibrosa e, portanto, de digestão mais demorada.
Como consequência, disseram os pesquisadores, o gado precisará consumir mais alimento para alcançar o peso de abate e passará a produzir mais metano, um potente gás causador do efeito estufa.
As conclusões têm como base experimentos feitos pela equipe de Carlos Alberto Martinez y Huaman, professor do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP. Participaram do estudo pesquisadores do Instituto de Botânica de São Paulo, da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Jaboticabal e do Instituto Federal Goiano, campus Rio Verde.
“Buscamos entender como as pastagens forrageiras responderão fisiológica e produtivamente às condições futuras do clima, que envolvem aumento na temperatura média e na concentração de dióxido de carbono (CO2), além de redução da disponibilidade de água”, disse Martinez à Agência Fapesp.
As principais espécies vegetais cultivadas são classificadas em C3 e C4, nomenclatura relacionada à via usada pela planta para fixar carbono na fotossíntese. Soja e feijão, por exemplo, usam a via C3. Gramíneas tropicais, como cana-de-açúcar, milho e forrageiras, desenvolveram um sistema complementar à C3 chamado de via C4.
Na tentativa de determinar com precisão as mudanças fisiológicas que as forrageiras deverão sofrer no futuro, Martinez evitou realizar experimentos em estufas – locais considerados limitados para fazer as simulações necessárias.
Como explicou o pesquisador, as plantas em estufas são cultivadas em vasos e, desse modo, têm o crescimento das raízes limitado. Consequentemente, crescem menos do que em campo aberto. Outras variáveis impossíveis de serem reproduzidas na estufa são a intensidade e a variação da luminosidade e da temperatura, causadas pela ação do vento sobre as folhas, além da profundidade do solo, no qual as raízes podem penetrar à procura de água.
“Para alguns experimentos, o modelo de vasos é válido, mas para simulações de clima futuro também são necessários experimentos de campo. Conseguimos aquecer as plantas ao ar livre com aquecedores infravermelhos. Além disso, enriquecemos o ar com CO2 em ambiente aberto, graças a uma infraestrutura denominada Trop-T-FACE, instalada em campo com apoio do Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais”, disse Martinez.
Experimentos em campo aberto – Foto: Divulgação via Fapesp
Os experimentos foram realizados em campo aberto, onde as plantas estão submetidas a condições normais de temperatura, luminosidade, vento e umidade e o solo é profundo, podendo as raízes se estender em busca de água.
A espécie empregada foi o capim-mombaça (Panicum maximum), uma forrageira tropical de origem africana que realiza fotossíntese pela via C4. Amplamente usado no Brasil como pasto, por sua alta qualidade nutricional, o capim-mombaça é comum em São Paulo e em outros Estados.
“Colocamos aquecedores infravermelhos em 16 canteiros, aquecendo as plantas 2º C acima da temperatura ambiente. Os equipamentos são capazes de detectar a temperatura ambiente a cada 15 segundos, ajustando os valores de acordo com a necessidade”, disse Eduardo Habermann, bolsista da Fapesp e primeiro autor dos trabalhos publicados nas revistas Physiologia Plantarum e Plos One.
“O experimento foi realizado em novembro de 2016, período de grande calor. A temperatura ambiente estava em 38º C e, nos canteiros, chegou a 40º C”, disse Habermann.
Ao longo do experimento, os pesquisadores aferiram as condições de trocas gasosas das plantas com a atmosfera, as condições da fotossíntese, a fluorescência da clorofila, a produção de folhagem (biomassa) e a qualidade nutricional do pasto.
“Vimos que, em condições de seca, as plantas tentam economizar a água do solo. O controle é feito pelos estômatos, pequenas estruturas presentes nas folhas, que se abrem para absorver o CO2. Mas, ao fazê-lo, perdem água. Com pouca água no solo, a raiz se ressente. A planta fecha os estômatos e transpira menos. O efeito da economia de água é a redução da fotossíntese, com a consequente piora na qualidade da planta”, disse Habermann.
Além do apoio da Fapesp, o trabalho também contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Agência Nacional de Águas (ANA).

Folhas mais fibrosas

Outras respostas do capim-mombaça ao estresse hídrico, detectadas pelo estudo, foram o aumento na quantidade de fibras das folhas e a redução no teor de proteína bruta – fatores que representam perda de qualidade nutricional.
Os pesquisadores estimam que, nas condições futuras de temperatura, o aumento na quantidade de fibras resultará em uma digestão mais difícil e demorada para o gado. A consequência direta será a produção de maior quantidade de metano pelos animais.
“O gado precisará consumir mais pasto até atingir o peso de abate. Para manter o mesmo nível de produção, os pecuaristas precisarão complementar a alimentação do plantel e regar as pastagens, com impacto significativo nos custos de produção”, disse Martinez.
Outra alternativa, nem sempre possível, é a expansão das áreas de pastagem, o que pode favorecer o desmatamento ou fazer com que o produtor abra mão de outros cultivos.
A equipe também realizou experimentos com plantas C3, como a leguminosa estilosantes campo grande (uma mistura das espécies Stylosanthes capitata e Stylosanthes macrocephala), forrageira rica em proteína e que executa a função de capturar o nitrogênio da atmosfera e fixá-lo biologicamente no solo, reduzindo os investimentos em insumos agrícolas, contribuindo para a redução dos impactos ambientais e possibilitando maior ganho de peso aos animais.
“Os experimentos de mudanças climáticas realizados com a leguminosa C3 deram o mesmo resultado. A qualidade nutricional é reduzida”, disse Martinez.
O artigo Increasing atmospheric CO2 and canopy temperature induces anatomical and physiological changes in leaves of the C4 forage species Panicum maximum (https://doi.org/10.1371/journal.pone.0212506), de Eduardo Habermann, Juca Abramo Barrera San Martin, Daniele Ribeiro Contin, Vitor Potenza Bossan, Anelize Barboza, Marcia Regina Braga, Milton Groppo e Carlos Alberto Martinez, está publicado em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0212506.
O artigo Warming and water deficit impact leaf photosynthesis and decrease forage quality and digestibility of a C4 tropical grass (https://doi.org/10.1111/ppl.12891), de Eduardo Habermann, Eduardo Augusto Dias de Oliveira, Daniele Ribeiro Contin, Gustavo Delvecchio, Dilier Olivera Viciedo, Marcela Aparecida de Moraes, Renato de Mello Prado, Kátia Aparecida de Pinho Costa, Marcia Regina Braga e Carlos Alberto Martinez, está publicado em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ppl.12891.
Peter Moon / Agência Fapesp

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Hortas comunitárias resistem à urbanização na maior metrópole do Brasil USP

 


Hortas comunitárias resistem à urbanização na maior metrópole do Brasil

Em São Paulo, as iniciativas periféricas trazem novas perspectivas de vida aos agricultores urbanos, homens e mulheres que vivem em condições de vulnerabilidade social

  Publicado: 05/11/2021
Por: Antonio Carlos Quinto, Ivanir Ferreira e Bruna Irala
Arte: Moisés Dorado/Jornal da USP

Do plantio ao prato, seja em um restaurante ou em qualquer residência na cidade de São Paulo, os legumes e as hortaliças passam por um longo caminho. São produzidos, em grande parte, em municípios próximos à capital, como Mogi das Cruzes, Santa Isabel e Suzano, na região leste, e Ibiúna, Itapetininga, Piedade do Sul e Sorocaba, na região oeste, formando o Cinturão Verde. Essa produção é encaminhada à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), na Zona Oeste da cidade, que comercializa os alimentos junto a feirantes e comerciantes em geral. Nesse trajeto, os preços vão aumentando a cada etapa, ainda mais se existirem outros atravessadores e intermediários.

Além desta produção, há na capital paulista iniciativas de plantio de legumes e hortaliças nas chamadas “hortas comunitárias”. Nestes casos, o trajeto do plantio ao consumo é mais curto.

A USP vem atuando nesse caminho auxiliando estas iniciativas com pesquisas e estudos que permitem viabilizar novos empreendimentos ou incentivar os já existentes. Estes locais acabam se tornando campos férteis para a Universidade desenvolver estudos e experimentos em educação e segurança alimentar, cultivos de ervas medicinais e geração de conhecimento.

Estas “hortas comunitárias” vão surgindo cada vez mais nesta São Paulo que é a maior metrópole brasileira, com cerca de 12,3 milhões segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2021 – distribuídos numa área de 1.521 quilômetros quadrados (km²). Elas brotam em cantos cinzentos das regiões centrais da cidade ou em pedaços de chão esquecidos nas periferias.

Não se sabe ao certo quantas são, mas já passam de centenas, algumas com um caráter mais social de produzir alimentos saudáveis e gerar renda para quem há muito já foi esquecido pelo mercado de trabalho, ou como mote de sobrevivência contra desigualdades estruturais. E outras, instaladas em bairros de classe média, possuem um valor mais simbólico de resistência à frenética urbanização da cidade e mostram uma nova relação de consumo com o alimento.

De acordo com informações da Secretaria do Verde e Meio Ambiente, da Prefeitura de São Paulo, a plataforma Sampa+rural, que reúne iniciativas de agricultura, turismo e alimentação saudável, registra atualmente 103 hortas urbanas na capital paulista. No site da plataforma é possível visualizar a localização das hortas espalhadas pela cidade.

Fonte: site Sampa+rural

Na USP, grupo de cientistas centraliza estudos sobre agricultura urbana

Dentre as diversas iniciativas da USP junto a hortas urbanas e comunitárias pode-se destacar o Grupo de Estudos em Agricultura Urbana (GEAU) que, em 2016, foi integrado ao Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Desde então, o grupo traz uma proposta de nuclear debates e estudos sobre a agricultura urbana (AU) e periurbana no município de São Paulo: possibilidades, conexões e contemporaneidade. A coordenadora do grupo é a professora Thais Mauad, pesquisadora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina (FMUSP) da USP, especialista em saúde urbana e fundadora da horta comunitária da FMUSP.

Desde a sua criação, em 2014, o grupo mantém parcerias com instituições de ensino e pesquisa no Brasil e no exterior, além de congregar pesquisadores de várias unidades da USP – da Faculdade de Medicina, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, do Instituto de Energia e Ambiente e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental -, e também permaneceu ativo, inclusive, durante a pandemia. Um dos artigos mais recentes publicado pelo grupo, em março de 2021, na revista Sustainability, foi The Impact of COVID-19 on Urban Agriculture in São Paulo, Brazil.

O artigo, de autoria de pesquisadores brasileiros e da Université Paris-Saclay, Paris, França, mostrou como os agricultores foram afetados por interrupções na cadeia alimentar durante a pandemia de coronavírus. Os pesquisadores mostraram que 50% dos agricultores urbanos de São Paulo foram afetados pela pandemia, o que resultou em sensível queda nas vendas de seus produtos. Os mais prejudicados foram aqueles que dependiam de intermediários, e mesmo entre os que conseguiram se adaptar aos novos canais de venda, 22% afirmaram que ficou mais difícil obter insumos para a horta. “Houve queda significativa no valor de venda dos produtos e aumento no custo dos insumos entre abril e maio de 2020”, descreve o artigo.

Professora Thais Mauad, do Departamento de Patologia da FMUSP, é uma das fundadoras da “Horta da Faculdade de Medicina”. “O ambiente da horta nos faz pensar na origem do nosso alimento e sua importância para manter uma boa saúde”, diz – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Os pesquisadores observaram também que embora os agricultores não tivessem recebido apoio institucional do governo durante a pandemia e os trabalhos nas hortas tivessem diminuído bastante, nenhuma horta foi fechada permanentemente.

Por fim, com todas as dificuldades, os autores reconhecem o papel estratégico da agricultura local no alívio da insegurança alimentar em grandes cidades como São Paulo e defendem a necessidade da melhoria de políticas públicas para a área. “A AU auxilia na diminuição da dependência de produtos frescos transportados por longas distâncias, especialmente em bairros mais carentes, criando renda e empregos para as pessoas que precisam”, relata o estudo.

Os dados foram obtidos a partir da análise de duas pesquisas governamentais, com 2.100 agricultores do estado de São Paulo e 148 da cidade de São Paulo, além de duas pesquisas qualitativas feitas com voluntários de dez hortas comunitárias e sete agricultores urbanos.

Parceria estuda a produção urbana em São Paulo e Melbourne

Em uma das parcerias estabelecidas no exterior, pesquisadores do GEAU e da Universidade de Melbourne, Austrália, buscam compreender como se estabelecem os sistemas de produção urbana de alimentos nas duas metrópoles – São Paulo e Melbourne.

O projeto visa gerar conhecimento e aumentar a capacidade de resiliência dos sistemas de produção urbana de alimentos; entender e aumentar a governança de agricultura urbana nas duas cidades; aumentar a capacidade técnica para melhorar as práticas de irrigação; e melhorar a seleção de plantas comestíveis apropriadas para os dois ambientes.

O projeto também inclui a realização de seminários e visitas técnicas para trocar conhecimento em permacultura (ciência holística e de cunho socioambiental, que congrega o saber científico com o tradicional popular) e irrigação no contexto urbano, além da promoção de eventos com a participação de autoridades do governo local (SP), com o objetivo de ajudar no avanço de políticas públicas locais para a produção sustentável de comida nas cidades e técnicas de manejo de água em tempos de crise hídrica.

“A parceria com Melbourne rendeu dois artigos e um capítulo de livro, cujo tema foi a agricultura urbana em Melbourne e São Paulo, tendo como pano de fundo a questão da terra”, explica ao Jornal da USP a professora Thais. O GEAU também publicou o dossiê Agricultura urbana no município de São Paulo: considerações sobre produção e comercialização na Revista de número 101, do IEA, em abril de 2021; e contribuiu com um capítulo de e-book sobre a fome, que será lançado em breve pela USP.

Conheça mais sobre os integrantes do grupo GEAU:

Partindo para a prática

Não bastam artigos, estudos e projetos. Para além das pesquisas sobre o tema e dos saberes científicos que resultam em benefício dessa nova demanda social da cidade, a USP parte para projetos concretos como o da “Horta da Faculdade de Medicina”, plantada na laje de um dos edifícios da Faculdade de Medicina.

Horta da Faculdade de Medicina da USP. Cultivo feito na laje de um dos prédios da faculdade em bombonas de plástico e vasos de isopor. Professores, alunos, funcionários e voluntários da comunidade se revezam para cuidar da horta.
Crédito: Cecília Bastos/USP Imagens

Além dos benefícios proporcionados pelos alimentos produzidos e colhidos no local de forma orgânica, o espaço também serve de discussão para vários assuntos, como o das práticas integrativas junto à medicina tradicional. Thais Mauad, uma das fundadoras e coordenadora da horta, crê que é importante se pensar nos fatores que estão na gênese das doenças. “O ambiente da horta nos remete a origem do nosso alimento e sua importância para manter uma boa saúde”, diz

Na grade curricular da FMUSP existe a disciplina “Medicina Culinária”. De acordo com a docente, trata-se de uma disciplina optativa que já é ministrada há três anos. “Oferecemos uma vez por ano e, neste 2021, tivemos uma enorme procura, por mais de 100 alunos, e estamos ministrando na forma on-line para os campi de Ribeirão Preto e Bauru, além da capital”, conta. Na matéria, professores da FMUSP, profissionais e chefes gastronômicos ministram aulas e oficinas que abordam o impacto da alimentação na saúde dos pacientes. 

Alguns dos alimentos produzidos na horta Faculdade de Medicina – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Thais fala dos variados cultivos que existem na horta. “Além das verduras e legumes mais conhecidos pela população, como alface, chuchu, cebolinha e couve, temos também as Pancs (plantas alimentícias não convencionais), que eram os alimentos consumidos por uma geração mais antiga – taioba, caruru, beldroega, ora-pro-nóbis, cambuquira, folha de batata-doce, etc. “Essas hortaliças são de fácil cultivo e cuidado, além de serem altamente nutritivas”, diz.

E para mostrar que essas plantas são saborosas, duas pesquisadoras da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP –  Ana Maria Bertolini e Gabriela Rigote – organizaram um e-book com receitas utilizando as Pancs. Acesse o livro de receitas: https://www.fsp.usp.br/sustentarea/e-books/  

Alguns dos alimentos produzidos na horta Faculdade de Medicina
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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