Especialistas discutem a abordagem e o papel que o Brasil pode desempenhar no sentido de contribuir para ampliar o conceito de turismo regenerativo
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https://jornal.usp.br/?p=998769
Publicado: 24/04/2026 às
11:51
Turismo regenerativo é uma abordagem do setor que se preocupa com a regeneração de ambientes naturais, sociais e ecológicos. Essa linha de pensamento não é um tipo de turismo, como defende o professor Thiago Allis, do curso de Turismo e Lazer da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e líder do grupo de pesquisa em Mobilidade e Turismo. Segundo ele , o turismo regenerativo é uma forma de entender e desenvolver a atividade.
O turismo
regenerativo
A concepção do turismo regenerativo no meio acadêmico é considerada
recente, mas, na prática, essa abordagem já acontecia. A doutora Loretta
Bellato, pesquisadora adjunta da Federation University (Austrália), que visitou a EACH no dia 15 de abril durante a Aula Magna do Programa
de Pós-Graduação em Turismo (PPGTUR-USP), explica que práticas turísticas
relacionadas aos povos indígenas, no Brasil, se organizaram em torno da
regeneração e reciprocidade, além de ter o cuidado com a terra e o bem-estar da
comunidade.
“O turismo regenerativo não é necessariamente uma nova abordagem, mas o
que ele faz: é tirar ideias de algumas dessas linhagens muito antigas que têm
olhado como cuidar da terra e das comunidades por muitas gerações. [O turismo
regenerativo] é uma forma de unir alguns desses pensamentos para que possamos
pensar sobre o turismo de uma forma diferente”, explica Loretta, que
desenvolveu sua tese de doutorado Contribuições do turismo para o desenvolvimento regenerativo de sistemas
urbanos-sociais-ecológicos na Swinburne University of
Technology (Austrália).
“Brasil pode vir a
ser um grande líder”
A professora
Jaqueline Gil, do Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília
(UnB) e também convidada para a Aula Magna do PPGTUR-USP, destaca o possível
papel que o Brasil pode exercer na atividade. “Para o Brasil aprofundar esse
debate, azeitar esse conhecimento e olhar para o turismo regenerativo como uma
grande nova oportunidade, é também uma vantagem competitiva, inclusive, de
mercado e de marketing. “É um tema em que o Brasil pode vir a ser um grande
líder nesse processo, porque mais de 80% da nossa população já é urbana.”
A
regeneração de espaços urbanos ganha importância com 87% da população morando
em ambientes urbanos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). A regeneração do urbano fica “cada vez mais central, também, nesse
movimento de urbanização das nossas cidades. E, do ponto de vista da natureza,
a gente tem muitos espaços que podem se tornar grandes oportunidades nesse
processo de regeneração”.
Diferenças entre
sustentabilidade e regeneração
O turismo
sustentável e o regenerativo possuem propósitos diferentes para a especialista
australiana. No caso do ramo sustentável, “o propósito do turismo é apoiar o
desenvolvimento econômico e gerar lucros. Há alguns benefícios em relação ao
ambiente ecológico e social, mas é principalmente dirigido por agendas
econômicas. O propósito do turismo regenerativo é apoiar a saúde e o bem-estar
das comunidades e do lugar”, diz Loretta Bellato.
O
pesquisador Thiago Allis complementa: “Falar em sustentabilidade já não é mais
suficiente ou já se desgastou a ideia” para o mercado, que fica “inventando
novos nomes”. Para o pesquisador, o turismo regenerativo é um jeito de encarar
os desafios do desenvolvimento turístico e rejeitar a ideia de tratá-lo como
mais um segmento da atividade.
Entre 1985 e 2024, foram perdidos 52 milhões de hectares (-13%) de área de vegetação nativa na Amazônia, segundo dados da MapBiomas – Foto: Amazônica Real/Wikimedia Commons
Já Jaqueline Gil, também doutoranda no Centro de Desenvolvimento
Sustentável e pesquisadora no Laboratório de Estudos em Turismo e
Sustentabilidade, ambos da UnB, adiciona que o conceito de sustentabilidade
surge no turismo a partir da publicação do Relatório Brundtland (ou relatório Nosso Futuro Comum), em 1987. O relatório define o
desenvolvimento sustentável como “aquele que atende às necessidades do presente
sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas
próprias necessidades”, segundo o próprio texto.
Jaqueline
esclarece que o relatório deixou excelentes iniciativas e também “um
legado positivo na literatura científica”. Por outro lado, o relatório
não mudou a forma que o turismo é planejado, diz a pesquisadora brasileira.
Depois de aproximadamente 39 anos, “quando vamos fazer uma análise de
indicadores, de forma geral, sobre onde estamos no turismo, entendemos que
poderíamos estar pior se não tivesse o avanço da sustentabilidade, mas não
estamos bem como deveríamos estar”.
O turismo
sustentável não é o suficiente para combater as mudanças climáticas no setor,
segundo essa visão. “Quando colocamos a lente das mudanças climáticas nesta
análise, fica muito claro de que todo o planejamento do nosso turismo, até
agora, nos trouxe para um ponto de grandes emissões de efeito estufa. Não
existe, na literatura científica, hoje, e também não na prática, evidências que
nos indiquem que o turismo reduz ou tenha reduzido as suas emissões de gases de
efeito estufa.”
A regeneração no
turismo antes da Academia
A
regeneração de ambientes não é só ambiental, mas também urbana. Jaqueline
reforça que as práticas de regeneração de ambientes no turismo já existiam
antes da nomenclatura acadêmica. Um exemplo de turismo regenerativo são os
empreendimentos como o Cristalino Lodge, na Amazônia. “O dinheiro oriundo das
reservas de hospedagem e da alimentação dos visitantes financia a conservação
de uma área da Amazônia. Se a gente tivesse, de uma forma mais ampla, políticas
públicas e investimentos direcionados para a gente fazer do turismo um meio de
financiarmos a recuperação desses espaços, seja no urbano, seja no rural, a
gente, provavelmente, estaria poluindo menos, emitindo menos gás de efeito
estufa e capturando mais esses gases.”
Para além do
turismo, a regeneração já era usada em outros setores. Loretta Bellato ressalta
que, “em termos de pensamento regenerativo, a agricultura é um setor que tem
exercido um grande papel em aplicar esse pensamento”. Jaqueline acrescenta que,
“no caso da agricultura, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa), aqui no Brasil, é um exemplo de pesquisa e atividade prática com
essa temática há muitos anos, que é o fato de que muitas terras foram
degradadas pelo caso de não terem sido usadas corretamente”. Com a retirada da
cobertura florestal, o solo perde seus nutrientes. Para revitalizar o solo e
torná-lo produtivo de novo, é necessário “recuperar o ciclo dela entre solo,
água e nutrientes”, por exemplo, através de espécies que facilitam os processos
de renutrição.
Jaqueline Gil prossegue ao falar da participação da arquitetura no ramo regenerativo, como é o caso do Hotel Rosewood, que transformou antigos edifícios históricos em um complexo de luxo sustentável urbano. Segundo a professora, o turismo “bebeu da fonte de setores que chegaram antes nessa prática, e quando eu trouxe esse caso do Hotel Rosewood, em São Paulo, eu estou diretamente falando da arquitetura regenerativa. Ao invés de derrubar aquele espaço que tem muita história e tem muita qualidade construtiva, a gente revitaliza ele e eu mantenho essa revitalização viva e dinâmica a partir do dinheiro do turismo. Se fosse só a arquitetura, provavelmente são aqueles prédios que passam por renovação, depois se tornam residências, ou se tornam escritórios comerciais. No nosso caso, é quando exatamente o dinheiro fica entrando a partir da atividade turística”.
Mão na massa ou não?
O turismo
regenerativo age de duas formas para a recuperação: através do engajamento
direto do turista que participa da atividade de regeneração ativamente ou
através dos recursos financeiros arrecadados na atividade. “A gente tem uma
parte dos turistas que quer colocar a mão na massa e, quando eles participam, a
gente acelera o replantio e a regeneração desses espaços, sejam eles verdes (terrestres)
ou azuis no mar.” O outro grupo que pretende descansar e não se envolver
ativamente pode “promover este financiamento da recuperação desses espaços, a
partir do que ela deixa envolvida naquela economia”, como detalha a
pesquisadora da UnB.
A plantação de corais faz parte do Biofábrica de Corais, projeto vinculado ao Departamento de Bioquímica da Universidade Federal de Pernambuco. O projeto desenvolveu uma espécie de berço para cultivar fragmentos de espécies de corais ameaçadas – Foto: Jobosco/Wikimedia Commons
Um exemplo
do replantio feito através da participação dos turistas é a plantação de corais
em Pernambuco. “Os turistas vão lá, de fato, e plantam os corais, orientados
pela equipe e dentro de um desenho que é seguro para os turistas. Sem
equipamentos com potencialidade de danos, se cortar, nada disso. A gente faz um
desenho para que a experiência seja segura e interativa, positivamente para
esse turista.”
*Sob
supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
Política de uso
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