sexta-feira, 5 de março de 2010

Expedição constata invasão de pinus e contaminação por agrotóxicos

Expedição constata invasão de pinus e contaminação por agrotóxicos

Ambientalistas defendem criação de um Refúgio de Vida Silvestre e acreditam que é possível conciliar proteção ambiental com geração de renda, através de visitação pública, turismo rural, turismo histórico-cultural e eco-turismo

Divulgação http://www.miraserra.org.br/
Pedreiro: ave endêmica da região


Por Redação da EcoAgência

A região dos Campos de Cima da Serra é de rica biodiversidade, baixa ocupação populacional e águas cristalinas que, também correspondem em grande parte, ao Planalto das Araucárias”. A bióloga Lisiane Becker faz um relato no site da ong Mira-Serra sobre a Expedição que os ambientalistas realizaram na última semana (23 a 28/03) visando reencontrar o local, ver as suas condições e defender junto à população a criação desta região e a do Rio Pelotas como Refúgio da Vida Silvestre (RVS) pelo Ministério do Meio Ambiente. Conforme o divulgado, a proposta é de uma unidade de conservação de proteção integral que permita que os proprietários de terras continuem a ocupá-las com seu uso tradicional. No caso dos Campos de Cima da Serra, maior área do refúgio, a atividade tradicional é a pecuária extensiva.

A importância da criação do Refúgio de Vida Silvestre se manifesta de diversas formas, como através da reunião das principais nascentes dos formadores das Regiões Hidrográficas do Lago Guaíba e do Rio Uruguai. Além de toda a exuberância dos campos de altitude que predominam na região, a bióloga citou a beleza das florestas de araucárias e das turfeiras. “Todas estas formações vegetais fazem parte do bioma Mata Atlântica, um dos cinco mais ameaçados do planeta!,” enfatiza Lisiane.


Imagens revelam a riqueza natural, como a do Rio do Touros, um dos afluentes do rio Pelotas. Os desfiladeiros, cascatas e paredões rochosos, atraem turistas. E muitas espécies da flora e fauna são endêmicas, ou seja, se perdidas pela imposição da construção de uma hidrelétrica ou barragem, não poderão ser jamais encontradas em outro lugar.


Ameaças

As ameaças à preservação da área de Refúgio incluem: plantio de alimentos com altos índices de aplicação de agrotóxicos e extensas plantações ilegais de pinus e, a implantação da usina hidrelétrica de Pai Querê, como se já não tivessem sido danosas as de Itá, Machadinho e Barra Grande. “É para manter todos os atributos biológicos, culturais, históricos e cênicos do que restou no Rio Pelotas e Campos de Cima da Serra, que existe a proposta de criação de um Refúgio de Vida Silvestre do Rio Pelotas e dos Campos de Cima da Serra, como um Corredor Ecológico na divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina,” disse Lisiane. O RVS é um tipo de Unidade de Conservação do Grupo das Unidades de Proteção Integral, prevista na Lei do SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), de julho de 2000. O objetivo é preservar a existência ou reprodução de espécies da flora local e da fauna residente ou migratória, excepcional nesta região.


A ambientalista acredita que o chamado RVS possa ser constituído por áreas particulares, possibilitando aos proprietários utilizarem a terra e os recursos naturais. Como exemplos de atividades que conciliariam proteção ambiental com geração de renda, citou: visitação pública, turismo rural, turismo histórico-cultural, eco-turismo. “A observação de aves (birdwatching) é uma excelente opção para a economia local. A pecuária é uma das alternativas econômicas viabilizadas de acordo com a proposta deste RVS,” concluiu.


Mais em http://www.miraserra.org.br/rvs_folder_inicial.htm

Saiba mais sobre a região proposta para o Refúgio da Vida Silvestre


E quipe multidisciplinar, coordenada pela MIRA-SERRA, visita pontos importantes

Campos de Cima da Serra

É uma região de rica biodiversidade, baixa ocupação populacional e águas cristalinas, que também correspondem, em grande parte, ao Planalto das Araucárias. Nesse paraíso estão localizadas as principais nascentes dos formadores das Regiões Hidrográficas do Lago Guaíba e do Rio Uruguai. Além de toda exuberância dos campos de altitude, que predominam na região, conta ainda com a beleza incomparável das florestas de araucárias e das turfeiras. Todas estas formações vegetais fazem parte do bioma Mata Atlântica, um dos cinco mais ameaçados do planeta!


Rio dos Touros, um dos afluentes do rio Pelotas

Outros atrativos naturais são os desfiladeiros (canyons), cascatas e paredões rochosos. O clima frio e úmido da região selecionou uma flora e fauna exuberante. Entre as mais de mil espécies vegetais, destacam-se as petúnias, os lírios e a flor símbolo do Rio Grande do Sul: o brinco-de-princesa.


P etunia

A fauna da região pode ser observada com relativa facilidade, como: o graxaim do campo, o veado-campeiro, o lagarto-do-papo-amarelo, a patativa e a seriema. Com sorte, pode-se observar de perto um dos maiores felinos das Américas,
o puma (ou leão-baio).


Pedreiro: ave endêmica da região

No Aparados da Serra

Rasgado por mais de trinta desfiladeiros que parecem terem sido cortados, os Aparados da Serra constituem a borda da Serra Geral, e daí a origem do seu nome. O embasamento da Serra Geral, de menor altitude, apresenta outra variedade do bioma Mata Atlântica, caracterizada pela floresta que inclui as palmeiras do palmito. Assim, tanto na base ao nível do mar quanto no topo - entre 1.000 e 1.800 metros de altitude - um horizonte verde a perder de vista.

Os seus pontos mais deslumbrantes são os cânions do Itaimbezinho (Parque Nacional dos Aparados da Serra), Fortaleza (Parque Nacional da Serra Geral), Monte Negro (ponto mais alto do RS), a Pedra Furada e o Campo dos Padres, de onde se avista boa parte do litoral catarinense e algumas das estradas mais lindas do país, como a Serra do Rio do Rastro (SC) e a Rota do Sol (RS).

Na região dos Aparados da Serra ainda é possível retornar no tempo, em qualquer idade, percorrendo - a pé, a cavalo ou de bicicleta- parte do antigo “Caminho dos Tropeiros”. Este complexo de trilhas ligava o Rio Grande do Sul até São Paulo e foi responsável pela ocupação de áreas onde, atualmente, temos vários municípios. Destacam-se as taipas (muros de pedras), o gado franqueiro e os sítios arqueológicos.


Parte da trilha dos tropeiros, em Bom Jesus, foi registrada por portugueses em 1727.

Não bastasse toda essa beleza e história, a região também é um tradicional reduto gaúcho onde se pode aproveitar o bom chimarrão, o churrasco, os bailes, os Centros de Tradição Gaúcha e um calendário permanente de rodeios crioulos, torneios de laço e cavalgadas com saídas diárias.

No Rio Pelotas

É impossível esquecer as belezas naturais do Rio Pelotas e a sua importância biológica, cultural e histórica. Principal afluente do rio Uruguai, ele forma uma das maiores regiões hidrográficas do Sul do Brasil. Suas águas passam ainda pela Argentina e pelo Uruguai e mais tarde se juntam ao rio Paraná para formar o grande rio da Prata.


Passo da Vitória, ponto de passagem dos tropeiros, entre a margem do RS e de SC

O rio Pelotas foi palco de passagem dos antigos tropeiros que atravessavam a mula-guia amarrada numa espécie de botezinho, feito com couro de boi, ao qual davam o nome de pelota. Nessa “pelota” iam dois remadores, o que deu origem ao nome do rio. O Passo de Santa Vitória, na foz do rio dos Touros, era o ponto mais adequado de travessia desde os primeiros tropeiros (1740) e foi também palco de um evento importante da revolução farroupilha: o combate de Santa Vitória, em 1839, com a presença de Anita Garibaldi lutando para derrubar as forças do império.


L ocal histórico, com taipas que viram o combate de Santa Vitória


Ainda é possível avistar a trilha dos tropeiros na margem oposta, em Santa Catarina

É um paraíso, entre montanhas e remanescentes de Mata Atlântica, para ambientalistas e aventureiros. O primeiro rafting nas águas do Pelotas ocorreu numa expedição em setembro de 2006. Nesta expedição foi possível constatar a enorme riqueza que será perdida, caso sejam efetivado projetos de instalação de aterros industriais tóxicos e de distritos industriais, mudando a paisagem e comprometendo a biodiversidade. Todo este cenário de beleza ímpar também está ameaçado pelos plantio de alimentos com altos índices de aplicação de agrotóxicos e extensas plantações ilegais de pinus. Usinas Hidrelétricas (UHE), como Itá, Machadinho e Barra Grande (esta última “afogou” oito mil hectares de campos e florestas) já comprometeram a biodiversidade e a cultura de grande parte do rio e de suas margens. A maior ameaça atual é a proposição para construção da quarta UHE, Pai-Querê, que sepultaria o último trecho livre do rio Pelotas.

Um Refúgio para a Vida Silvestre

Para manter todos os atributos biológicos, culturais, históricos e cênicos do que restou no Rio pelotas e Campos de Cima da Serra, existe a proposta de criação de um Refúgio de Vida Silvestre do Rio Pelotas e dos Campos de Cima da Serra – como um Corredor Ecológico na divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

O Refúgio da Vida Silvestre (RVS) é um tipo de Unidade de Conservação do Grupo das Unidades de Proteção Integral, prevista na Lei do SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), em julho de 2000.

Uma RVS tem como objetivo preservar a existência ou reprodução de espécies da flora local e da fauna residente ou migratória, excepcional nesta região.


O local oferece beleza natural ímpar

O RVS pode ser constituído por áreas particulares, o que possibilita aos proprietários utilizarem a terra e os recursos naturais. Havendo harmonia entre os objetivos da área e as atividades privadas, é possível conciliar proteção ambiental com geração de renda. São exemplos de atividades: visitação pública, turismo rural, turismo histórico-cultural, eco-turismo. A observação de aves (birdwatching) é uma excelente opção para a economia local. A pecuária é uma das alternativas econômicas viabilizadas de acordo com a proposta deste RVS.


A criação de gado bovino é uma das opções econômicas

Portanto, a criação do RVS Rio Pelotas e Campos de Cima da Serra é uma necessidade para a biodiversidade e para as comunidades locais.


imagens: biól.Lisiane Becker